Pela História de Gaurama | Notas de Viagem

Pela História de Gaurama

Pela História de Gaurama

Realizamos o passeio de um dia conhecendo as belezas e curiosidades do município gaúcho

Você já ouviu falar de Gaurama? sabe onde fica?
Bom, para que fique não fique perdido(a) vamos iniciar com um breve resumo sobre o município:

Localizada a pouco mais de 380 quilômetros da capital Porto Alegre, ao norte do estado do Rio Grande do Sul, Gaurama possui uma população estimada de 5.534 habitantes (IBGE 2019), no início, até meados de 1944 era conhecida como Colônia Barro. Há rumores de que o nome “Barro” surgiu por conta de um grande banhado existente na região. Logo após esta data passou ser conhecida como Gaurama.
Alguns anos depois, em dezembro de 1953 Gaurama conseguiu a sua emancipação pela Lei n. 2530 de 15 de dezembro de 1954, se desvenciliando do município de Erechim.

Vista parcial do povoado da Estação do Barro na década de 30. Foto: Acervo Museu Municipal Irmã Celina Schardong

Pelas estradas de chão e com a câmera na mão

Em uma tarde de sábado, clima frio e com um sol maravilhoso, resolvi desbravar um pouco do município de Gaurama, no Rio Grande do Sul, pegando a estrada sentido Erechim a Três Arroios pela BR-153, antes de chegar ao trevo de acesso de Três Arroios, entrei à direita (acesso à Gaurama) e comecei a minha aventura em meio às estradas de terra. O trajeto rodeado pela natureza conta com belezas naturais e de bônus, possui construções antigas em diferentes propriedades particulares. 

A primeira meta da lista de atrativos locais era a Igreja São Paulo, a qual está localizada na comunidade de Linha São Paulo. Como sou apaixonada por construções antigas, foi uma satisfação enorme avistar aquela construção simples mas com uma importante história. 

 

Uma Construção Centenária

Localizada a cerca de 10 km da área central do município de Gaurama, com suas paredes brancas, janelas em tons de marrom e cercada pelo verde da mata nativa, a Igreja se destaca pela sua beleza simples e uma história de mais de 100 anos. 

No dia 26 de janeiro de 2020 foi feita uma programação comemorativa pelo centenário da capela. Foto: Jessica Edel

Toda construída em madeira, a igreja São Paulo foi tombada no ano de 2008 como patrimônio histórico do município de Gaurama. A construção se mantém tão bem preservada graças ao apoio da comunidade, onde as famílias da região, entre colaboradores e diretoria se revezavam para ajudar a mantê-la e cuidar de sua limpeza e manutenção. 

Capela Linha São Paulo na década de 20. Foto: Acervo Museu Municipal Irmã Celina Schardong

 

Além de sua exuberante beleza externa, o seu interior bem preservado também chama a atenção. Veja algumas fotos a seguir:

 

Uma bela casa amarela

Localizada na comunidade de Luce Rosa entre o trajeto de Gaurama – Três Arroios  há uma casa de alvenaria com coloração amarela. A construção em si, foi fundada no ano de 1936 e pertenceu à  família Sirena. Houve uma grande participação das mulheres da família em sua construção, que iam até o rio que fica ao lado da casa peneirar areia.  O local chama a atenção pela sua arquitetura robusta e antiga. 

A casa de coloração amarela pertencia ao senhor Luiz Sirena (já falecido) e a senhora Natalina Sirena, que hoje reside em Erechim. Foi habitada até o ano de 1980, e após isso, a propriedade foi vendida. Há uma estrada que passa ao lado da construção, sendo a primeira estrada construída pela companhia Luce Rosa no ano de 1910 na região da Colônia Barro (atualmente conhecida como Gaurama).

 

 

 

Localizada a cerca de 8 km da área urbana do município, a construção possui grande potencial turístico, tendo em vista a sua história e beleza, além de estar edificada em um local estratégico em meio à natureza, com uma boa infraestrutura e uma estrada em boas condições para acesso.

Infelizmente a casa não está bem cuidada e há muito lixo dentro da residência, a construção já sofreu depredações e precisaria de uma boa reforma. 

São no total três andares: o porão, onde eram guardadas as ferramentas e madeira para o inverno, o primeiro piso, onde ficava a sala, cozinha, banheiro, 4 quartos, e varanda. Também possui um sótão onde há mais 4 quartos. A casa possui o total de 8 dormitórios.   

 

Assisti recentemente a vídeos que falam sobre a casa ser assombrada. Falei com um senhor que pertence à família dos antigos proprietários, e ele me explicou um pouco sobre a história do lugar e a respeito da atual situação. Ele afirma que o local não é assombrado, a as afirmações gravadas em vídeo  não passam de uma lenda inventada para causar medo, curiosidade na população e ganhar likes nas redes sociais. 

Vale ressaltar que sempre é melhor pedir a autorização do dono, pois mesmo sendo antiga, um patrimônio praticamente abandonado, é uma propriedade particular e não um ponto turístico. 

Paróquia São Luiz Gonzaga 

Com uma importante história no município de Gaurama, a Paróquia Luiz Gonzaga que completou seu aniversário de 100 anos em 30 de agosto de 2019. A majestosa construção, está localizada em frente à praça Antônio Burin, em um dos pontos mais altos de Gaurama.  

Igreja Matriz São Luiz Gonzaga nos dias atuais. Foto: Jessica Edel

Com uma importante participação na construção histórica da Colônia Barro, no início quando as famílias chegavam em busca de melhores condições de vida, a religião se tornou um amparo para enfrentar as adversidades de um recomeço. Na época, a empresa colonizadora prometia assistência escolar, religiosa e de saúde para quem comprasse os lotes na região. Era uma forma para fazer com que as famílias se sentissem mais confiantes em investir na Colônia Barro. A construção inicial da igreja foi uma iniciativa dos freis que chegaram à antiga colônia. No início era um pequeno barracão, após foi edificada uma pequena igreja e depois, em 1926 foi construída uma igreja maior toda em madeira, matéria-prima em abundância na época e principal fonte de renda da região.

A Paróquia que conhecemos hoje começou a ser construída no ano de 1947, e toda a sua base foi feita ao redor da anterior, que foi desmanchada conforme as obras avançavam. Acompanhe a seguir algumas fotos registradas ao longo da história: 

“Histórias só existem quando Lembradas”

Esse intertitulo é o lema do assunto que iremos falar a seguir:

Com um variado acervo de itens que retratam a história da comunidade, o Museu Municipal Irmã Celina Schardong foi fundado no ano de 1987. O objetivo do museu desde seu início é recolher, classificar, fazer a pesquisa referente a história de determinado objeto, datar, catalogar no acervo, criar arquivos digitais e expor esses elementos históricos que contam a história do município e de seus colonizadores. 

 

Foto: Jessica Edel

Desde 2009 faz parte do catálogo Nacional de Museus, onde participa anualmente da Semana Nacional de Museus. Tal evento é realizado pela International Council of Museums (Icom). 

No ano de 2013, através do processo de concorrência pública o Município de Gaurama foi contemplado com o projeto Pró Cultura FAC dos Museus da Secretaria de Estado da Cultura, o que permitiu que o Museu passasse por uma reforma das instalações elétricas e a restauração das estruturas do local. 

A antiga Estação Barro hoje é sede do Museu Municipal. Foto: Jessica Edel

Todo o processo de restauração foi realizado em conjunto com o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Fronteira Sul, que buscou manter as características já existentes do museu, visando conservar o acervo existente, bem como o caráter histórico-cultural da Estação Ferroviária. O espaço foi reinaugurado no dia 17 de junho de 2016.

Veja abaixo algumas fotos cedidas pela Elisiane Gnovatto Coordenadora de atividades culturais de Gaurama e uma das responsáveis pelo Museu Municipal:

Para não deixar de citar um fato importante: desde 2006 o museu está localizado na antiga Estação Barro, onde a história de Gaurama (na época chamada Colônia Barro) começou a ser escrita em meados de 1910. Nada mais justo do que um espaço de tamanha importância para a comunidade abrigar um acervo com peças que auxiliam a retratar e manter viva a história do município.

Passeando pelos trilhos

Construída pela empresa Belga Auxiliaire de Chemins de Fèr no século XX, mais especificamente no ano de 1910, a Estação Ferroviária Barro bem como a Ferrovia São Paulo Rio-Grande, foi de grande importância para definir o espaço onde seria estabelecido o local que ficaria a Vila Barro. Os trilhos ligavam os centros urbanos de Santa Maria e Porto Alegre em direção ao sul, e São Paulo e Rio de Janeiro para o norte.

Com saída em frente ao museu,a estação ferroviária do município foi edificada no ano de 1910, no mesmo ano em que ocorreu a inauguração da Ferrovia São Paulo Rio-Grande. A Estação era um ponto de abastecimento de água e lenha para os trens que passavam por ali. Os mantimentos para as Marias-fumaças dividiam espaço com as madeiras que eram exportadas.

Na época as construções eram erguidas de forma estratégica próximas da estação. Dessa forma ficava mais fácil para que os comerciantes e colonos descarregassem sua produção. Enquanto os trilhos iam ganhando forma, muitas pessoas chegavam até a Colônia Barro na expectativa de trabalhar na construção da Ferrovia.

O local por onde caminhamos, foi palco de muitas vidas, sonhos e lembranças.

Trem internacional passando no viaduto férreo n° 3, no trecho Gaurama-Viadutos em 1949. Foto: Acervo de Nilson Rodrigues

Em 18 de junho de 1997 se encerrava um ciclo, foi quando o último trem passou pela Estação do Barro. Como eu mesma digo, há muito mais do que simples trilhos, ali foi construída a história, não somente do município e de seus moradores, mas também de toda a região.  

Isso só reforça o quão importante essa ferrovia foi para a comunidade, e é até hoje. A diferença é que as cargas de mercadorias, cartas e telegramas que antes eram transportadas ao longo dos trilhos, cederam lugar para a comunidade e visitantes que se interessam em caminhar pelo trajeto de 5km onde há a variedade da paisagem urbana e natural.  

Cenário para belas fotografias, os trilhos do trem se destacam em meio à paisagem natural. Foto: Jessica Edel

Deixo aqui meus agradecimentos ao senhor Ismar Antônio Demarco e sua família por permitirem que eu fotografasse a área interna da igreja, à dona Gladis Helena Wolff (diretoria de Cultura) e à Elisiane Gnovatto (coordenadora de atividades culturais), responsáveis pelo Museu Municipal Irmã Celina Schardong – Gaurama/RS que me atenderam prontamente, sendo atenciosas desde o começo e permitindo que eu tivesse acesso à história e arquivos locais.

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